Um verso enigmático do Bhagavad Gita

O Bhagavad Gita (literalmente "Canção do Mestre") é um dos grandes clássicos da literatura universal e da filosofia. Ele aparece num dos livros[1] do Mahabharata, o grande épico hindu, obra monumental de ensinamentos sublimes dentro da tradição védica, e atribuída ao sábio Vyasa.

Na verdade, o nome Vyasa significa “compilador” e não sabemos quem é o autor. É até difícil datar cronologicamente tanto o Mahabharata quanto o Bhagavad Gita, e talvez, fossem trabalhos independentes, sendo depois o segundo incluído no primeiro. O Mahabharata narra a morte de Krishna e o começo da Kali Yuga, então deve ser depois de 3.102 a.C.[2] Além disso, assim como a Ilíada, manteve-se por via oral por um período indefinido, sendo escrito, somente a partir do século V a.C. O Mahabharata, como a própria Bíblia, é um compêndio de diferentes livros, de diferentes épocas, e talvez alguns são muito mais velhos do que imaginamos. O Mahabharata pertence ao que é chamado de “tradição”, smriti  (memória), mas o Bhagavad Gita, com 18 livros e 700 versos, embora parte dela, é chamado Upanishad e incluído na “revelação santa” (sruti) , como os próprios Vedas.

H.P. Blavatsky no final do século XIX disse que esses textos devem ser “lidos” usando sete chaves de interpretação diferentes (alquimia, psicologia, fisiologia, astronomia, história, matemática, etc.) por isso é muito difícil saber o que os acontecimentos narram, se eles são histórico-factual, processos de transformação da natureza, astronômicos… Os historiadores ocidentais englobaram toda esta obra na categoria “mito”, categoricamente negam a sua historicidade, como tinham anteriormente feito com a cidade de Troia, a Ilíada e Odisseia. No entanto, a cidade de Dvaraka, na qual Krishna reinou, foi encontrada coincidentemente a noroeste da costa da Índia, em 2001, fazendo-nos rever, assim, tudo o que pensávamos que sabíamos sobre esta saga formidável.

O Bhagavad Gita é a jóia filosófica da Índia, que chegou ao Ocidente pela primeira vez com traduções para o português. Shopenhauer elogiou-a, David Thoreau disse dela:

“De manhã, banho o meu intelecto na estupenda e cosmogônica filosofia do Bhagavad Gita, diante da qual o nosso mundo moderno e a sua literatura parecem insignificantes e triviais.” 

Gandhi traduziu-o do sânscrito e aprendeu-o de cor; H.P. Blavatsky introduziu-o nos textos que os seus discípulos tinham de estudar e meditar e em geral todos os membros da Escola Esotérica; Sri Aurobindo também fez uma tradução e comentou em vários dos seus estudos, e Vivekananda, entre outras centenas de filósofos e místicos, dedicou-lhe a sua atenção. O próprio George Lucas foi inspirado pelo Bhagavad Gita e pelo Mahabharata para realizar Star Wars, segundo ele disse, em várias entrevistas, também incentivado pela filosofia e recomendações de Joseph Campbell, outro dos amantes deste livro. Na Organização Internacional Nova Acrópole é um dos livros que estudamos com assiduidade. A cena em que Arjuna, o principal herói deste magno poema, está no meio dos dois exércitos opostos (Kurus e Pandavas), antes do início da guerra, é muito inspiradora . Arjuna representa a consciência humana nas grandes encruzilhadas, no meio de uma natureza divina e outra bestial que reclamam o seu espaço para viver nela.

Krishna conduz a carruagem de Arjuna. Manuscrito da Bhagavad Gita.

De qualquer forma, o objetivo deste pequeno artigo não é para mencionar o Bhagavad Gita, em geral, mas apenas um de seus versos (slokas), o número 46 do segundo capítulo (Estância), o capítulo chamado “ensinamento esotérico”. Para ver, assim, a grande dificuldade que temos muitas vezes para compreender estes textos em sânscrito, onde quase todos são metáforas, analogias e comparações de incrível profundidade. Há dificuldade, mesmo em traduzi-los, porque a língua sânscrita é muito sintética, quase matemática-conceitual, mais que discursiva, e ao passar para línguas atuais (embora sejam do património Indo-Europeu), mutilamos muitas das alusões, ou temos de fazer circunlóquios longos, que no final, mais velam ou escondem do que esclarecem o significado original.

Literalmente, diz:

यावानर्थ उदपानेसर्वत: सम्प्लुतोदके | 


तावान्सर्वेषु वेदेषुब्राह्मणस्यविजानत: || 46 ||

Yavan artha udapāne sarvataḥ samplutodake

 tāvānsarveṣhu brāhmaṇasya vedeṣhu vijānataḥ

yāvān – tudo isso; arthaḥ – tem por finalidade; uda-pāne – num poço de água; sarvataḥ – em todos os aspectos (ou desde-por, em direção a – todas as partes); sampluta-udake –num grande lago; tāvān – tantos, de modo similar; sarveṣhu – todos; vedeṣhu –Vedas; brāhmaṇasya – o homem que conhece o Supremo Brahman (que alcançou a iluminação); vijānataḥ – quem tem completo conhecimento. 

No Bhagavad Gita traduzido por Ramacharaka, que consultou muitas versões para unificar fazer um texto unificado em inglês, o yogui ocidental vê-se obrigado a acrescentar explicações prévias, todo o primeiro parágrafo:

“Assim como a água que flui de uma fonte cheia vasos de acordo com a forma e capacidade de cada um, assim os ensinamentos espirituais não proporcionam senão a parte que cada qual é capaz de receber conforme o grau da sua evolução.

Para o brâmane iluminado, os Vedas são tão proveitosos como se a sua mente fosse um vaso capaz de receber toda a água de uma fonte inesgotável.”

Na versão de Annie Besant, discípula de H.P. Blavatsky e diretora da Sociedade Teosófica desde o ano 1907 até sua morte, em 1933:

“Tão proveitosos são os Vedas para o brâmane iluminado, como a água de um lago cheio até a borda.”

Na edição da Nova Acrópole de Espanha, que faz um compêndio de várias:

“Para um sábio dotado de visão espiritual, os Vedas tem tanta utilidade como um poço que foi coberto por uma inundação.”

Na de Sri Aurobindo, um dos grandes filósofos e místicos do século XX

“Há tanta utilidade nas águas de um poço que as águas de uma inundação o cercam por toda parte, como existe em todos os Vedas para o brâmane que possui o conhecimento.”

Swami Mukundananda traduz assim:

“Tudo aquilo para que serve um pequeno reservatório de água serve em todos os aspectos um grande lago. Do mesmo modo, aquele que alcança e compreende a Verdade Absoluta também cumpre o propósito de todos os Vedas. “

Na tradução de Swami Prabhupada, no seu “Bhagavad Gita, Como É”:

“Todos os propósitos que cumpre um pequeno poço, podem cumpri-los imediatamente um grande depósito de água. De igual modo, todos os propósitos dos Vedas podem ser cumpridos por aqueles que conhecem o propósito por trás deles.”

É muito audaz a afirmação do “Bhagavad Gita, tal como é”, porque se a compararmos com as palavras em sânscrito, uma por uma, esta é uma das mais “livres” e imprecisas de todas as traduções. Depois o comentário feito pelo autor não tem nada a ver, absolutamente nada, com a máxima. Que seja o Bhagavad Gita que está em mais casas ocidentais não significa, nem muito menos, que seja o melhor. Na minha opinião, é a versão mais dogmática, estreita de pensamento, e menos filosófica de quase todas as que conheço. Literalista e rígida, dentro do devocional (bhakti), um perigo, pois, por natureza, o devocional deve ser fluídico e versátil, como o próprio movimento da água que corre ou da chama que se eleva no céu. A versão que foi divulgada a “marteladas”, mesmo que entregue gratuitamente, não a torna uma versão menos sectária e longe de uma interpretação lógica e natural do texto.

Na versão de Gandhi, que além de traduzir adiciona comentários:

“Na medida em que um poço é útil quando uma inundação o invade todo, na mesma medida os Vedas são úteis para um brâmane que possui conhecimento.”

Na tradução de Adiyen Nasanudasan

“Para o brâmane que conhece o Ser, os Vedas são de um uso semelhante ao de um lago cheio para uma pessoa sedenta.”

Na tradução de A. Mahadeva Shastri:

“A mesma utilidade que existe num lago, se o compararmos com uma inundação de água que se espalha por toda parte, a mesma (utilidade) existe em todos os Vedas para um brâmane iluminado.”

Destacamos, como exemplo, entre os comentários, o do grande Ramanuja (1077-1157), de caráter devocional [3] :

“Nem tudo o que é ensinado nos Vedas é oportuno para ser praticado por todos. Um lago que transborda em água é construído para todos os tipos de propósitos, como irrigação, etc. A pessoa sedenta irá usar apenas o que é necessário para matar a sua sede, e nunca todo. Da mesma forma, um aspirante iluminado que busca a libertação só levará dos Vedas aquilo que contribui diretamente para a Libertação, e nada mais.

De outra perspetiva, a do maior dos filósofos vedânticos, Shankaracharya, em seu famoso comentário sobre o Bhagavad Gita, analisando este verso diz:

“Qualquer que seja a utilidade – para tomar banho, beber ou algo parecido – para o qual ela serve um poço, ou um tanque, ou muitos outros pequenos depósitos de água, todas essas utilidades são apenas, no máximo, as utilidades oferecidas por um fluxo de água que se estende por toda parte; isto é, a utilidade do primeiro está incluída na do segundo. Do mesmo modo, qualquer utilidade que exista no ritual védico, ela está incluída na utilidade do reto conhecimento de um brâmane que renunciou ao mundo e conquistou totalmente a verdade em relação à Absoluta Realidade; sendo, nesta comparação tal conhecimento a água que transborda por toda parte. O sruti disse: “Tudo de bom que as pessoas fazem, tudo isso é possuído por alguém que sabe o que ele (Raikva) conhece”. O mesmo pode ser dito aqui. Deste modo, a um homem que está destinado para o trabalho é necessário realizar trabalhos (que estão aqui no lugar dos poços e tanques de água), antes que ele esteja apto para a senda do conhecimento”. 

As dificuldades em traduzir estes textos deixa claro para nós, que estas máximas são diamantes facetados que irradiam luz-verdade em muitas direções, e que cada um entende aquela para o qual está preparado, ou que está mais em concordância com a sua natureza intima. 

De todas estas interpretações, eu vou tomar um texto do professor Jorge Angel Livraga (1930-1991), que embora não seja nenhuma referência explícita ao Bhagavad Gita, pode dar como uma flecha no alvo com o significado interno deste sloka. Na sua “Oração do Discípulo” ele diz:

“Senhor, dá-me uma gota do teu entendimento, que será para mim como um mar através do qual navegarei e alcançarei às costas que sonho.”

José Carlos Fernández


[1] Mais especificamente, no Bhisma Parva

[2] Mais especificamente, o início do Kali Yuga ou Idade das Trevas, data-se em 17 de Fevereiro de 3102 aC, numa conjugação de seis dos nossos planetas no signo de Peixes. A sua duração é estimada de acordo com a cronologia hindu em 432.000 anos.

[3] Comentário ligado à tradução de Aniyen Nasanudasan que aparece várias linhas antes.

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