Yamakavagga: Os Pares – Comentário ao Capítulo I do Dhammapada

A mente antecede todos os estados mentais

O clássico “Dhammapa” dá início com a conceção da mente como a criadora de estados mentais, ou seja, de pensamentos, sendo esta uma ideia tão antiga como a própria Humanidade. Se consultarmos as principais obras da antiguidade ou se recorrermos às conhecidas Leis Herméticas, sobre a qual emana a sua primeira premissa, “Tudo é mente.” 

 Antes do Ser Humano elaborar um estado mental, este é forjado pela mente construída sob alicerces que o próprio edifica ao longo da vida. Por esse motivo, a conceção de ética surge acompanhada de todo o princípio evolutivo interno, pois sem ela a mente corre o risco de se conectar com elementos prejudiciais à criação de estados mentais mais elevados, puros ou dignos. Quando concebemos a fonte da desarmonia interna, como sendo os estados emocionais, estamos longe de conhecer a verdadeira fonte sob a qual emana a nossa vida interior. Conceber essa mesma fonte como os estados mentais pode revelar uma aproximação à fonte, mas mesmo assim não é a fonte em si. 

Quando o Ser Humano entende que a fonte é a mente, alcança, então, o princípio conector com o mundo inteligível e superior. Por esse motivo,

A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o seu criador, pois são todos forjados pela mente. Se o Ser Humano fala ou age com uma mente impura, o sofrimento segue-a como a roda que segue o pé do boi”, mas “se uma pessoa fala ou age com uma mente pura, a felicidade segue-a como uma sombra que jamais a abandona”.

O livro “A Voz do Silêncio” também refere que a “a mente é a grande destruidora do real”, quando abriga, em si mesma, pensamentos derivados da descida da mente ao estado de Mara – a grande ilusão que retira o Ser Humano do seu estado de pureza. 

Para a Filosofia Oriental, o mundo real acessa-se por um estado de consciência denominado, também por Platão, como Arquetípico, ou seja, Bom e Belo na sua plenitude. Uma mente conectada a este estado compreende que “O ódio é apaziguado unicamente através do não-ódio. Esta é uma lei eterna.” 

A desarmonia emocional, principal raiz do sofrimento humano, tem como ponto inicial a não conexão da mente a níveis superiores de consciência, unindo-se desta forma à vida ilusória na qual o Ser Humano inevitavelmente habita. Dominado pela “busca de prazeres, descontrolado nos seus sentidos, imoderado no comer, indolente e disperso” o Ser Humano cede ante a tempestade, pois o “depravado, destituído de auto-domínio e veracidade, ao vestir o hábito amarelo do monge, certamente não é digno dele.” Nesta sequência, a união da mente com a essência mais pura da existência habita naquele que “vive a meditar sobre o que é impuro, que tem controlo nos seus sentidos, moderado no comer, cheio de fé e esforço sincero.” Tão belas palavras, cuja simplicidade confunde aquele cuja mente se fixa nos próprios objetos da perceção. 

Budha, Amsterdam Museum. Pixabay

Para o despertar de uma mente verdadeira e pura, torna-se fundamental a perceção daquilo que é essencial através de uma meditação profunda. Não se alcança um estado superior da mente, sem a criação de um pensamento que procure a raiz das causas dos acontecimentos. Esta procura do mistério da vida em nós, naquilo que nos rodeia e que tantas Escolas de Mistérios procuravam transmitir, nos seus adeptos iniciados, está na base da grandeza da nossa própria alma. Desta forma:

“Aqueles que conhecem o essencial como sendo essencial e aquilo que não é essencial como não essencial, nutrindo pensamentos correctos, chegarão ao essencial.”

Com a captação daquilo que é essencial, proveniente desta meditação profunda, o Ser Humano consegue iniciar a sua atitude de vigilância e conexão entre a mente e os níveis superiores. Perante a criação de um qualquer estado mental inferior, deve o vigilante encontrar a raiz na sua mente, saindo da esfera do sentimento e do pensamento, pois o problema reside na fonte que é a mente. “Assim como a chuva penetra na casa mal coberta de colmo, também a paixão penetra numa mente pouco vigiada.”

A distração, proveniente da descida da mente ao mundo das ilusões e das paixões, está na raiz da perda da vigilância. Por esse motivo, muitas civilizações retratam esta postura com grande nobreza, na medida em que o vigilante é aquele que garante a sua própria coerência e dignidade no ato de verificar continuamente a elevação da sua mente. Ante esta ausência de posto, surge a dor do arrependimento e da lamentação, cujas consequências encontramos no despertar da consciência e no retomar da vigilância perdida com a sabedoria e a coragem fortalecidas. “Aquele que faz o mal sofre no presente e no futuro, sofre em ambos os mundos. Lembrando-se dos seus atos impuros, ele lamenta e fica aflito” , mas “aquele que faz o bem, alegra-se no presente e no futuro, alegra-se em ambos os mundos. Relembrando as suas ações puras, ele se alegra-se e exulta.”

Os pensamentos  “eu fiz mal” ou “eu fiz bem” geram consequentemente aflição ou felicidade no Ser Humano. O primeiro manifesta-se nas emoções turvas, confusas, dolorosas em que raiz é a perda da vigilância da mente, o segundo encaminha o Ser Humano para o renascimento nos reinos da felicidade. 

De uma forma sábia e subtil, Yamakavagga: Os Pares, ensina a nobre verdade da dualidade. Do caminho puro versus caminho impuro e da visão do real, da sabedoria e da liberdade, em oposição à ilusão, ao ódio e à luxúria. Ensina que a reação emocional e mental, que temos ante a vida e ante as circunstâncias tem a sua raiz na mente, na qual o acesso de reconexão passa necessariamente pela meditação disciplinada e vigilante. Caso contrário, ante uma pequena distração, os pingos da chuva, por mais finos que sejam, entram silenciosamente na casa de quem se ausenta do seu posto de vigia interior.

Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, apegado a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.

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