Yoga: A Ciência da Alma (1ª parte)

Originalmente publicado na revista The Path de Agosto 1892 Desejo falar-vos com a maior simplicidade possível a respeito da mais importante ciência do mundo – a ciência da alma – chamada Yoga em Sânscrito.

samatvaṃ yoga ucyate

o Yoga é chamado equanimidade

Bhagavadgītā 2.48d

Assim deverás estar em perfeita harmonia com tudo quanto vive e respira; dirigindo-te aos Homens com amor como se eles fossem teus condiscípulos, discípulos de um Mestre, e filhos de uma doce mãe.

A Voz do Silêncio, H. P. Blavatsky

Provavelmente alguns de vós poderão não saber que o actual e restrito significado da palavra «ciência» só foi moda por um breve momento dos períodos temporais das eras, e que «ciência» entre os Antigos antepassados da nossa raça Ária [i.e., Indo-Europeia] significou algo mais do que o simples uso cuidado e inteligente dos nossos cinco sentidos, auxiliado de instrumentos mecânicos.

Actualmente, no Ocidente, a afirmação de que o conhecimento é atingível não só através dos cinco sentidos é vista como uma impertinência ignorante pelos altos sacerdotes da ciência e pelos seus fiéis devotos; mas na medida em que todos nós dêmos inevitavelmente a honra devida ao escrutínio admiravelmente paciente e meticuloso que resgatou o Ocidente das garras de um pesadelo eclesiástico, temos também de aprender que o recentemente estabelecido papado da moderna ciência é o vigia das nossas almas e o ditador da nossa existência espiritual. Em oposição à sempre crescente negação que vai obscurecendo os ideais e paralisando as intuições dos Homens, mulheres e crianças de hoje, o actual movimento Teosófico, pelo seu próprio título, afirma numa entoação invariável que o conhecimento real deve ser adquirido; que o Homem é, por um lado, algo mais do que um animal de cinco sentidos e, por outro, que não necessita de esperar que a morte lhe feche as portas e assegure as coisas espirituais.

Templo hindu de Shiva Mandir em Bangalore

A antiquíssima ciência da alma afirma que o Homem é um ser imortal, divino e espiritual, cujo tabernáculo carnal não passa de uma estadia ou prisão temporárias; que os seus sentidos físicos, longe de serem os seus únicos meios de conhecimento, são quase sempre invariavelmente amarras auto-impostas que o agrilhoam no seu calabouço apertado, onde, de facto, da forma mais miserável, irá morrer, não o tivesse libertado misericordiosamente o sono [Hipno], o irmão mais novo da morte [Tânato], durante a noite e o levado por um momento de volta à sua morada da liberdade. Mas aquele que começou a aspirar pela libertação desta escravidão, começa simultaneamente a ver a natureza ilusória da prisão e dos grilhões do corpo; a forma com que estes nos privam do nosso bom senso, e nos fazem considerar a prisão como a um palácio e os grilhões como coroas de flores de perfume adocicado. Enquanto lunáticos no asilo dos sentidos, que é o que somos, poucos de nós chegam alguma vez a contemplar o facto da varinha mágica do sono transformar um terço das nossas vidas num vazio impenetrável, e que a morte, essa grande condutora de almas, pode a todo o momento colocar-nos a mão sobre o ombro.

Na maioria das vezes, se um Homem chegasse de todo a pensar, ele observaria o sono com admiração e a morte com respeito. O sono e a morte guardam dois portais. Através de um, o Homem passa e repassa diariamente num desmaio; através do outro, ele passa para não mais voltar. Em todo o caso, assim nos parece. É verdade, isto parece ser assim; mas a ciência da alma não lida com parecenças, esta deixa as aparências para o domínio dos cinco sentidos e da mente cerebral, e concentra o seu estudo nas realidades e no conhecimento directo. O Yoga nega que o sono seja um vazio e a morte o fim da existência; este defende a possibilidade do conhecimento dos mistérios do sono ao despertar e dos mistérios da morte em vida; e diz-nos que as portas do sono e da morte podem ser passadas e repassadas com plena consciência. Este Yoga, ou ciência da alma, é tão preciso e exacto no seu procedimento quanto os nossos mais rígidos métodos científicos; mas ao passo que a ciência física lida com fenómenos físicos, a ciência psíquica lida com a alma das coisas. Os Mestres do Yoga afirmam da forma mais definitiva e firme que a existência, natureza, vida e história da alma tem sido e pode ser exacta e rigorosamente demonstrada e comprovada no seu próprio domínio tal como o mais conhecido facto científico, assim chamado, no universo natural. A negação por parte desses ignorantes sobre o tema, e os uivos da imprudência por provas físicas e objectivas daquilo que é pela sua própria natureza imaterial e subjectiva, não podem ter um verdadeiro peso para o estudante. A vulgaridade intelectual e a astúcia barata não poderão enfraquecer mais a realidade eterna da natureza espiritual do Homem imortal, do que cuspir ao sol possa afectar o deus do dia.

George Robert Stowe Mead (1863 – 1933)

E agora, qual é o significado do Yoga? Foram-lhe dadas muitas definições, e claro que esta mesma ciência foi chamada por outros nomes, em tempos diferentes, por diferentes culturas, em várias línguas. Este é um tema repleto de tecnicidades, pois existe uma vasta literatura que o trata com clareza e da forma mais técnica, e, num sentido mais amplo, todas as Escrituras Sagradas do mundo são manuais desta ciência.

No presente artigo, contudo, todas as tecnicidades serão evitadas, e por isto mesmo tomei a liberdade de definir o Yoga como ciência da união do Homem com a origem do seu ser, com o seu verdadeiro Eu. Verá imediatamente o leitor que a reivindicação da nossa ciência é a do conhecimento directo. Não quer isto dizer que o estudante se torne imediatamente omnisciente, ou que obtenha, de um só salto, o total conhecimento das coisas em si mesmas. De modo nenhum. O caminho do conhecimento puro é um caminho longo e árduo, de uma auto-disciplina severa e de um esforço generoso e infatigável. Mas o caminho eleva-se numa montanha, e assim a visão estende-se de tal forma, que cada passo sucessivo conquistado é da natureza do conhecimento directo, se comparado com os estados anteriores. Neste momento, somos como Homens que mantêm os seus olhos tenazmente fixados no chão que têm a seus pés, que ainda nem sequer olharam para o universo visível tal como ele é. Existem múltiplos estados de conhecimento da alma, imensuráveis degraus de união com o Eu, pois finalmente este Eu é o EU Único de tudo quanto foi, é e será.

Seria presunção minha imaginar que toda a gente concordará comigo nas minhas definições, e naturalmente todos são livres de encontrar palavras melhores e mais apropriadas para revestir as ideias de acordo com a sua competência. Existe, contudo, uma necessidade que se abate sobre todos os Homens nas suas repetidas errâncias na terra, «uma necessidade que a alma tem de extinguir-se no infinito», tal como foi dito, e o gélido frio da negação não pode amenizar o fogo deste desejo divino, nem pode a actuação superficial de qualquer religião de boca satisfazer este ardor.

Esforçando-me por dar alguma ideia sobre o que é a ciência prática do Yoga, encontro-me em desvantagem para transmitir o meu objectivo devido à pobreza da nossa linguagem comum na adaptação desta terminologia. Todos nós já falámos alguma vez acerca da alma, da mente e da consciência, mas poucos de nós têm algum conhecimento sobre a infinidade de ideias que cada um destes termos implica. Neste artigo, a alma deve ser entendida como significante de toda a natureza do Homem à parte do seu corpo físico, a mente como o principio pensante, e a consciência como todo o limite do Homem, todo o seu ser. A mente é o pensador, o principio autoconsciente no Homem, os recursos do seu conhecimento. É este o principio, portanto, que é tanto o conhecedor quanto o seu instrumento no Yoga.

Esta mente é geralmente distinguida em dois aspectos para que se tenha uma compreensão mais clara. Provavelmente estes serão mais facilmente compreendidos como o «eu sou» e o «eu sou eu» no Homem, ideias que são geralmente empregadas pelos autores Teosóficos para distinguir a  individualidade da personalidade. A personalidade é a soma de todas essas impressões, como são chamadas no Oriente, que formam a nossa consciência quanto ao sermos esta ou aquela pessoa em particular, quanto ao sermos o actor e a vítima em todos os eventos da vida. Tudo o que fazemos, ou dizemos, ou pensamos deixa uma impressão no nosso carácter, quer sejamos conscientes disso ou não; e uma impressão uma vez induzida na nossa natureza plástica tende a repetir-se por si mesma mecanicamente e a formar hábitos que, como sabemos, se tornam instintivos. Se as impressões são más, forma-se um hábito perverso. A soma de todas estas impressões é chamada de personalidade, ou, para fazer uso de outra analogia, as vibrações despertadas pelos nossos actos, palavras e pensamentos inseparáveis da nossa natureza plástica, numa escala ascendente de subtileza e rapidez, de acordo com o seu plano de acção, até àquelas de substância invulgar que somos actualmente capazes de conceber, e que provavelmente podem ser chamadas de objectos do pensamento, já que este aspecto inferior da mente é substancial, senão material. 

O aspecto mais elevado da mente, pelo contrário, a individualidade, ao qual eu chamei de «eu sou», é de uma natureza divina e espiritual. Esta não é substancial, mas sim uma essência espiritual pura, divina, imortal, imemorial; esta não morre, nem ganha vida, mas é por todas as idades.

Ascetas perante o templo de Shiva. Página de um manuscrito de Kedara Kalpa, aprox. 1815, atribuído ao culto de Purku na Índia, estado de Himachal Pradesh (antigo reino de Kangra). Cor de água opaca em papel. Walters Art Museum, Baltimore, Maryland, W. 859.

Agora, a mente inferior é sempre vacilante e variável, extraviando-se para as coisas dos sentidos; esta é um Mazepa[1] agrilhoado pelas mãos e pelos pés ao cavalo da paixão e do desejo. No Oriente, é chamado órgão interno para o distinguir dos órgãos externos, e temos primeiro de aprender a libertá-lo das suas amarras antes de que possamos pôr os nossos pés no primeiro degrau da escada do verdadeiro conhecimento.

As incessantes mudanças que ocorrem na mente inferior são chamadas modificações do órgão interno; e estas têm de ser mantidas pelo punho firme da vontade espiritual desperta e tornada imóvel, se de facto pretendermos alcançar algum sucesso na ciência do Yoga.

Imagine o leitor uma folha de papel com algo escrito sobre ela, amarrotada numa bola, girando tumultuosamente na calha de um moinho. Tal é a mente inferior em cada um de nós. E se quisermos ler a escrita que nos relata o mistério da vida, temos primeiro de resgatar a bola de papel da calha do moinho das paixões, e depois desamarrotar cuidadosamente o papel por forma a alisar os vincos que nos impedem de ler o que lá está escrito, para que, por fim, possamos aprender sobre o de onde e o para onde da nossa peregrinação.

Uma analogia frequentemente utilizada nas obras Orientais, a respeito da mente superior e inferior, é aquela da lua reflectida nas ondas de um lago. Quanto mais a superfície está agitada, mais a lua será vista apenas como reflexo quebrado e instável, e não antes que desapareça toda a ondulação é que será reflectida uma verdadeira imagem do Homem divino nas nossas almas.

Mais uma vez, a mente inferior é como um espelho de metal coberto de pó e ferrugem; e até que estes sejam removidos nenhuma imagem será vista; ou, novamente, a mente deve ser tão firme quanto a chama de uma lamparina num local protegido de todos os ventos.

(fim da primeira parte)

[1]   Ver Lord Byron, Mazeppa, 1819. (N. do T.)

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