Yoga: A Ciência da Alma – 3ª Parte

Originalmente publicado na revisa The Path de Agosto de 1892. Tradução do Agnimile: Círculo de Estudos Orientais por G.R.S Mead(1863 – 1933) (3ª parte)

Ora, o objetivo de toda a religião parece-me ser o da união do homem com a Divindade, por qualquer meio e em qualquer sentido com que entendamos estes termos. A mais importante parte da religião, e também a parte mais facilmente compreendida por todos os homens, é o seu ensinamento ético. O motivo pelo qual isto é assim permanece-nos geralmente obscuro; de facto, o ceticismo atingiu uma extensão tal nos últimos tempos, que alguns homens de grande habilidade e inteligência negam-lhe qualquer base científica de ética, e a maioria defende a nossa impossibilidade de alguma vez sabermos o porquê de devermos seguir um preceito ético em particular. Estes ensinamentos são para a maioria mandamentos meramente dogmáticos, ou cujas razões não possuem uma natureza explicativa, mas sim uma natureza feita de promessas ou de avisos: faz isto, pois de outra forma não obterás a herança do reino da luz, e por aí fora.

Ademais, a ciência superior da alma é rica em múltiplas e convincentes razões para que se viva uma vida mais pura e menos egoísta. Afirmando, como de facto faz, a possibilidade de afastar a negra cortina do sono e de abrir em dois o véu da morte, enquanto ainda estamos vivos, na própria declaração do método através do qual estas coisas devem ser cumpridas, e sobre os instrumentos que o homem deve utilizar para gerar o seu propósito, esta demonstra ainda que a moralidade é um treino preliminar indispensável. O homem deve observar a sua própria natureza olhos nos olhos, antes que ele possa observar a face da Natureza.

Se ele chegar a trilhar o solitário caminho do Yoga, pelo qual ele vai desviando os seus passos das fileiras dos seus companheiros, tornando-se num pioneiro auto-nomeado da humanidade, então ele deverá equipar-se com instrumentos adequados e, como nos diz em boa verdade a Bíblia, vestir-se «com a couraça da justiça». Sem estes requisitos é inútil voluntariarmo-nos para este trabalho de desbravador.

O caminho a ser seguido leva a terras desconhecidas, povoada de estranhos habitantes, um caminho interno que, de início, atravessa principalmente ao longo da região das nossas próprias criações, as quais fomos trabalhosamente trazendo à luz a todo o momento desde que tivemos corpos e mentes. Se pretendermos entrar nesta região desarmados, quer isto dizer, antes que nos tenhamos preparado através de um cuidadoso escrutínio das mais profundas fendas da nossa natureza moral, e através de uma rígida disciplina que nunca afrouxa a sua vigilância por um momento que seja, então seremos como um general num forte, liderando um exército amotinado e aliado ao inimigo do exterior, e temos que descobrir que, em boa verdade, os nossos inimigos são «aqueles da nossa própria família» e que o semelhante atrai o seu semelhante como que por uma inevitável lei da natureza.

Cena de batalha no Bhagavad Gita. Public Domain

Existe muita discussão entre certos teólogos acerca da “conversão”, e existe uma grande verdade escondida debaixo dos elementos externos que tão frequentemente fecham a ideia. Provavelmente, alguns de vós leitores, não sabem que a palavra Grega para arrependimento, que podemos encontrar no Novo Testamento e nas escrituras de muitas escolas místicas dos primeiros tempos do Cristianismo, significa, literalmente, uma «mudança de mente».

A teoria desta transformação e a história dos seus degraus místicos são tratados de forma elaborada por algumas destas escolas, e aquilo que ocorre inconscientemente num estado inferior da discussão usual, ocorre conscientemente num estado superior no Yoga. Este é o verdadeiro novo nascimento a que se referem os místicos Cristãos, e é por isto que os Brahmins (cujo termo significa realmente aqueles que são unos com Brahma, a Divindade) são chamados duplamente nascidos. Compreenderá o leitor, a partir daquilo que eu disse sobre a importância da mente no Yoga, o que significa esta mudança de mente ou arrependimento.

Ora, este arrependimento tem uma natureza extremamente mística que é de difícil compreensão. Suponhamos que observamos uma série de vidas de um individuo como se fosse um colar de pérolas. A pérola que está mais em baixo e ao centro representará este momento de viragem em todo o ciclo de nascimentos, quando ocorre a grande mudança de mente que demonstra que a alma começa a livrar-se das atrações da matéria.

Em cada nascimento sucessivo esta mudança repetir-se-á em menor escala, e podem regozijar-se aqueles a quem isto ocorre numa fase inicial da vida. Recordemo-nos apenas de que nisto não há pessoas especiais, aristocracia, privilégios ou monopólio. O caminho do auto-conhecimento, da auto-conquista e da auto-devoção está aberto a todos e em todos os momentos da vida. É indolência dizer-se: “o que me dizes é muito bom, mas não é para mim!” Não existe tempo para além do eterno presente.

É indolência deixar as coisas para o futuro quando nenhum de nós sabe o que foi o nosso passado. Como é que podemos ter a certeza de que não cumprimos parte do caminho anteriormente, e que os incidentes que vivemos ao longo do nosso atual nascimento não são apenas uma representação em pequena escala das vidas que vivemos anteriormente; que uma vez que tenhamos chegado ao ponto de viragem não tenhamos novamente de repetir todos esses esforços de ascensão que caracterizou essas vidas passadas nas quais percorremos um caminho ascendente da nossa peregrinação da alma?

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Dação. Pixabay

Nenhum homem pode afirmar que determinado poder para o bem não esteja latente naqueles que são comummente entendidos como mais distintamente perversos, uma vez que a força do seu carácter tenha sido voltada na direção certa.

Não existe nada de histórico na religião nem no Yoga. “Escolhe neste dia os deuses que irás servir” é aplicável a todos os momentos das nossas vidas. Não existe tempo para além do presente, e apenas os ignorantes atam a sua fé aos eventos históricos.

Claro que isto não constitui nenhuma novidade. É coisa muito velha, muito antiga, mas aquilo onde desejo insistir é que isto é prático e científico, no melhor sentido da palavra; não quer isto dizer, claro está, que eu acredite de alguma forma que uma coisa necessite de ser científica no sentido usual da palavra para ser verdade, mas porque o Yoga pode fazer afirmações com tudo o que há de melhor no método científico e ao mesmo tempo transcendê-lo imensuravelmente. Necessitamos de afirmar e reafirmar isto, já que as pessoas começam a afastar-se cada vez mais com medos e tremores do termo “científico”.

E agora, se alguém me perguntasse se eu recomendo o estudo do Yoga, a resposta seria: Se uma pessoa tentar honestamente viver uma vida moral, pura e generosa, ela está inconscientemente a treinar-se a si mesma para a prática desta ciência, e ela desenvolverá gradualmente, portanto, uma consciência da sua natureza espiritual que se desenvolverá em cognição direta, se não for neste nascimento, de alguma forma numa encarnação futura. Mas não me ficaria por aqui, pois acredito que nem a bondade sozinha nem o conhecimento por si só tornam um homem perfeito, mas que os dois devem seguir de mãos dadas até que o levem à perfeição.

Como tal eu acrescentaria: Estuda por todos os meios a teoria do Yoga, e tal como para a sua prática, sujeita-te continuamente à mais penetrante análise por forma a discernir os segredos das motivações das tuas ações; observa os teus pensamentos, palavras e ações; tenta perceber porque fazes esta ou aquela coisa e não outra; está sempre de vigia sobre ti próprio. Não julgues que pretendo dizer, usa apenas a tua cabeça. De modo nenhum: usa também o teu coração na sua capacidade total. Aprende a simpatizar com tudo, a desenvolver sentimentos por toda a gente; mas para contigo mesmo sê duro como o aço, nunca perdoes uma falha, nunca procures uma desculpa.

Nenhum de nós necessita de retirar-se do mundo para fazer isto; não precisamos de evitar a associação com os outros; nem sequer precisamos de fazer um “Domingo no dia”, como fazemos um Domingo na semana, no qual voltamos os nossos pensamentos para coisas superiores e durante o resto do tempo baixamos a nossa guarda. Mas ao mesmo tempo é do maior benefício a prática diária tentar e definitivamente concentrar a mente nalgum pensamento, ou nalgum objeto imaginário por forma a compreender o quão firme ela é, e o cultivar simultaneamente uma aspiração contínua e contemplativa em direção ao mais elevado ideal que em qualquer circunstância possamos conceber.

Provavelmente alguns de vós poderão julgar que este conselho é mera vulgaridade, e que poderão ouvir algo muitíssimo semelhante a partir do mais próximo púlpito. Provavelmente; mas a minha resposta continua a ser, Tenta! Tenta descobrir o porquê de realizares determinada Acão, ou de pensares determinado pensamento; tenta fixar a tua mente, nem que seja por sessenta segundos; e tenta meditar nalgum ideal elevado quando estiveres sossegado e sozinho, e livre de todo o ódio e malícia; acredita em mim, não te arrependerás do esforço.

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Meditação. Pixabay

Provavelmente ter-se-á apercebido o leitor do facto de eu não ter dito nada acerca das práticas mais avançadas do Yoga superior. A razão da minha omissão é a de que o tema é demasiadamente sublime e demasiadamente sagrado para que qualquer estudante, como eu, o tente fazer. As suas práticas são tão maravilhosas e as suas realizações tão estupendas que estes transcendem de forma absoluta todas as palavras e todas as descrições; e é por isto que estas práticas são invariavelmente tratadas numa linguagem simbólica e alegórica.

E muito dificilmente será necessário dizer aos estudantes da Teosofia que o Yoga é a mais importante chave para a interpretação das fontes sagradas a nível global, uma chave que até a nossa mestre H.P. Blavatsky se conteve em dar. Mas nenhum de nós precisará de sentir surpresa ou ressentimento perante esta omissão, se refletirmos que foi costume imemorial o reter da chave até que o pupilo estivesse preparado para a receber. Esta não é retida por mero capricho, pois já esta não pode ser retida quando o pupilo está preparado, e aqueles que retêm a chave é como se dessem o seu sangue vital para guardar a humanidade de misérias e tristezas ainda maiores do que aquelas nas quais esta está mergulhada no presente – ainda assim, na verdade, a humanidade não conhece o seu incessante sacrifício.

É fácil compreender que o tema sobre o qual me expressei é um de enorme dificuldade; Eu poderia ter-vos apresentado um longo tratado, cheio de termos técnicos retirados de livros difíceis numa vasta biblioteca literária, mas o meu propósito foi antes o tentar demonstrar que em si mesma esta ciência da alma não está ao alcance de qualquer um, e que esta é a linha de conhecimento mais prática e mais importante que o homem herdou.

Concluindo, é bom recordarmos que existe uma condição indispensável de sucesso nesta ciência, sem a qual os nossos esforços serão um fruto do Mar Morto. Esta deve ser praticada somente para o serviço aos outros; se esta for tentada para nós mesmos, ela provar-se-á nada mais do que uma ilusão, pois pertencerá ao “eu sou eu”, ao animal humano e pessoal, cuja característica é o egoísmo, enquanto a natureza do verdadeiro Yoga espiritual é aquela da devoção a todos os seres, de amor para tudo quanto viva e respira, e o dever do discípulo torna-se como aquele das estrelas do céu que “não recebem a luz ninguém, mas dão-na a todos”.

Companheiros, que todos nós possamos trilhar o caminho da paz!

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