Shankaracharya, uma lição de pedagogia eterna

Shankaracharya foi um grande mestre indiano que deixou uma profunda marca nas tradições filosóficas da Índia.
Shankaracharya. Creative Commons

Apresentamos aqui algumas reflexões sobre o método por ele proposto para que um mestre possa despertar o seu discípulo, baseados num excerto desse grande instrutor da filosofia Advaita Vedanta, intitulado “Um método para despertar o discípulo”:

“O professor é aquele que tem o dom de fornecer argumentos a favor e contra, de compreender as questões e de lembrá-las, que possui tranquilidade, autocontrolo, compaixão e um desejo de ajudar os outros, que é versado nas escrituras e desapegado dos prazeres tidos ou por ter, que renunciou aos frutos de todos os tipos de ações, que é um conhecedor de Brahman e estabelecido Nele, que nunca transgride as regras de conduta, e que é desprovido de limitações como ostentação, orgulho, engano, artimanha, impostura, inveja, falsidade, egotismo e apego. Ele tem o único objetivo de ajudar os outros e um desejo de partilhar somente o conhecimento de Brahman.”2

  1. O professor é aquele que tem o dom

Todos trazemos uma mensagem escrita na nossa alma. O caminho da vida deve ser escolhido de tal forma que a mensagem da alma possa ser entregue ao mundo, quer seja na forma do ensino, da arte, da ciência, do trabalho, ou qualquer outra das dignas obras humanas.

Há que reconhecer que nem todos podem ser ou tornar-se professores igualmente bons. O dom natural para ser professor, ou uma vocação de transmissão, é algo que nem todos têm. O dom pode crescer em quem já o tem em semente, mas não pode surgir em quem não o tenha em potência.

Não só para a arte de ensinar, mas também para todas as outras artes, a vocação está entranhada na natureza da nossa alma e precisamos encontrá-la e alimentá-la, seja ela qual for, para nos tornarmos autênticos e genuínos na realização da nossa missão no mundo.

  1. Fornecer argumentos a favor e contra

O professor deve guiar o discípulo até à compreensão de verdades cada vez mais próximas da Verdade. O percurso faz-se através da devoção do discípulo pelo seu mestre, o que implica confiança e boa fé no que lhe é transmitido, encaminhando a sua investigação na direção apontada. 

No entanto, como complemento à devoção, é necessária a investigação para que o discípulo desperte uma compreensão mais profunda que aquela possível somente através da crença na palavra do mestre. A investigação é uma caminhada através dos labirintos da mente e dos ensinamentos, é uma batalha contra as dúvidas, uma tensão perante dilemas, uma ousadia perante as sombras. É um percurso que, interiormente, se deve fazer a sós consigo mesmo.

Para auxiliar o discípulo a exercitar-se no labor da reflexão profunda, o mestre deve apresentar os exemplos a favor e contra cada questão ou ensinamento, evitando proteger demasiado o discípulo da confusão, confiando no seu discernimento e permitindo-o ocupar-se das ideias através de todos os pontos de vista possíveis. Afastar o discípulo dos argumentos contrários ao ensinamento é deixá-lo desarmado perante as controvérsias que encontrará no caminho, ou, o que é pior, é encobrir a insegurança do mestre quanto à mensagem que está a transmitir.

  1. Compreender as questões e lembrá-las

O professor não tem a missão de transmitir ensinamentos, mas sim de despertar o discípulo. A transmissão é um meio para o despertar, não a finalidade. Transmitir demasiados conhecimentos, como no fogo que se apaga com lenha a mais, reflete uma falta de atenção em relação ao discípulo. 

O discípulo emana sinais que podem ser interpretados com vista a adaptar o ensinamento ao que ele necessita em cada momento. Não necessitam ser perguntas nitidamente elaboradas, nem sequer palavras expressadas em conversa. Podem ser posturas, movimentos, expressões, hesitações.

Compreender as questões não significa saber a que tópico se referem, para depois ser debitada toda a verdade acerca desse tema. De entre tudo aquilo que o mestre sabe, deve ser selecionado apenas aquele ensinamento útil em cada momento. Compreender as questões significa perceber onde está a raiz da confusão, a origem da dúvida, a imagem distorcida, para ser possível responder removendo a causa da não-compreensão e devolver uma nova organização às ideias do discípulo.

Na resposta, não deve ser perdida de vista a causa da questão, sob pena de fazer derivar o assunto e causar ainda mais confusão do que a originalmente identificada. 

  1. Possui tranquilidade e autocontrolo

O professor deve manter a sua consciência elevada em todo o momento, especialmente em presença do discípulo durante a transmissão. Consciência elevada significa colocá-la acima dos seus próprios problemas pessoais, dos seus receios, de tudo aquilo que pode perturbar e, portanto, ofuscar a claridade dos seus raciocínios, a propriedade dos seus exemplos e a ajustada captação do que está a ser percebido pelo discípulo.

A tranquilidade pode ser perdida também pelo desacordo dos ouvintes, pela discórdia entre discípulos, por comportamentos desadequados, por interrupções inoportunas ou por manifestações de tolice. Mantendo o seu autocontrolo e nunca perdendo a iniciativa serena e delicada, o mestre deve ajustar com discernimento a trajetória dos ensinamentos, não guiado pelo medo ou pela vontade de imposição, mas guiado pela luz que vê o caminho através de um bosque de sombras.

Quando o mestre perde a serenidade da sua mente e se deixa afetar pelas suas emoções, transparece inevitavelmente a sua falta de concentração, a sua voz começa a tremer, surge a insegurança e perde assim o fio que devia guiar o discípulo através do labirinto, arriscando-se a atar e desatar nós desse fio que em, vez de guiar, aprisionará o ouvinte. 

  1. Compaixão e desejo de ajudar os outros

Para ensinar, o professor não deve apenas preparar a sua mente, mas também o seu coração. É uma elevação do sentimento o que torna possível uma conexão mais profunda entre mestre e discípulo: o mestre através compaixão, o discípulo através da devoção. Cria-se assim um laço de ouro por onde se derrama a luz da sabedoria.

Os conhecimentos presentes na mente devem estar impregnados de amor e compaixão, o que orientará a transmissão à ajuda do discípulo, acolhendo as suas falhas, não para as aceitar, mas para as iluminar de modo a que possam ser trabalhadas com as ferramentas transmitidas pelo mestre.

É este um estado de alerta, de vigilância, de sensibilidade em relação à vida interior do discípulo, capaz de perceber cada movimento da sua alma para que com ternas mãos invisíveis se possam curar as feridas dos seus erros e dos desvios, alentando-o a prosseguir através do longo e penoso caminho do discipulado. Com um mestre, perto ou longe, um discípulo nunca está só.

  1. Versado nas escrituras

Aquilo que é ensinado deve ir acompanhado de uma convicção interior. Sem estar convencido da sua mensagem, sem ter estudado e refletido profundamente sobre aquilo que se transmite, os exemplos tornar-se-ão ocos, as palavras carentes de fundamento, e o ensino não terá a força suficiente para convencer nem inspirar o discípulo durante muito tempo. 

Não pode haver dogma, mas deve estar seguro da doutrina. Dogma é uma crença cega, inquestionável, que não tem porque ser profundamente compreendida, apenas aceitada. Doutrina é aquilo que se ensina, é a mensagem, o corpo do ensinamento, no qual se acredita depois de uma reflexão aprofundada. Para atingir um tipo de crença que não seja cega, mas apoiada numa firme coerência lógica e racionalidade, uma crença filosófica, segura, por ser guiada pela intuição e sustentada pela maturação de cada uma das ideias, o professor deve adquirir o hábito de estudar continuamente, de ler, reler, comparar, resumir e preparar com esmero cada uma das aulas que vier a dar, ainda que já as tenha dado vezes sem conta.

O estudo mais importante deve dizer respeito à árvore da doutrina. Investigar as raízes antigas nos grandes mestres que lançaram os alicerces do sistema; ter presente o tronco das ideias fundamentais que constituem o ensinamento, separando o essencial do superficial; tomar consciência das ramificações e consequências práticas da aprendizagem; conhecer os frutos das obras que resultam de todos os que viveram e vivem a mesma doutrina.

Adi Shankara (~510 a.C. – 478 a.C.) com os seus discípulos. Wikipedia
  1. Desapegado dos prazeres tidos ou por ter

O apego ao prazer arrasta o discernimento e condiciona a vontade. A imaginação criativa que gera imagens claras modeladas em torno da verdade, transforma-se pelo apego ao prazer em fantasias confortáveis que representam os desejos e nos desviam o olhar da estrela da verdade. 

Os prazeres já tidos, se nos mantemos apegados a eles, criam na memória um critério artificial para a recordação, trazendo-nos preferencialmente o que nos poderia fazer sentir de novo o prazer, mas não necessariamente a recordação mais lúcida e adequada ao momento presente. O apego aos prazeres por ter, ou seja, os prazeres futuros ainda não experienciados, comanda os nossos planos e expectativas, dirigindo a mente para argumentações que nos irão aproximar desse objetivo. 

Ser desapegado dos prazeres não é equivalente a não ter prazeres. Mas há que ter em conta que prazeroso não é sinónimo de bom. Pela encosta do prazer deslizam as piores atitudes humanas em direção ao abismo, quando não mantém uma certa moderação. O prazer, nem tão pouco a ausência dele, não é critério absoluto para a bondade de qualquer experiência. O dever, e não o prazer, devem ser o constante guia na determinação do ensinamento a transmitir.

  1. Renunciou aos frutos de todos os tipos de ações

Ensinar, como todas as outras ações, gera os seus frutos ou resultados. Alguns desses resultados serão bons, outros não tão bons. O resultado almejado pelo mestre através das suas ações, das suas palavras e do seu exemplo, é que o discípulo desperte, que aprenda a conhecer-se melhor, que avance na compreensão das leis da natureza, que se fortaleça interiormente para vencer todos os obstáculos e superar todas as provas no caminho do discipulado. Nenhum desses frutos pertence ao mestre, mas ao discípulo.

Quando o discípulo avança, não deve o mestre considerar como tendo obtido um fruto para si, pois o resultado não lhe pertence. Quer o discípulo reconheça quer não, ainda que o discípulo caia na ingratidão, esse resultado em nada tirará valor às ações do mestre, se estas tiverem sido justas. O vínculo mestre-discípulo, ainda que se torne inamovível, está alicerçado na mais pura liberdade, única capaz de gerar a mais justa e genuína obediência.

Especialmente no acto da transmissão, o resultado não depende apenas do ensinamento do mestre, mas também da recepção do discípulo. Por mais que o mestre seja exemplo, por mais que as palavras sejam inspiradas, por mais que as ações sejam justas, o discípulo fará a sua assimilação e progresso apenas na medida do seu próprio esforço e discernimento. Depende do mestre esmerar-se naquilo que é o seu papel, o de transmitir, e não apegar-se a uma expectativa de determinado resultado que depende em grande medida do trabalho do discípulo.

  1. Que é um conhecedor de Brahman e estabelecido Nele

Para a maioria de nós há uma diferença entre o conhecedor, o conhecimento e aquilo que é conhecido. Costumamos considerar a realidade como algo externo a nós, acerca da qual obtemos conhecimento. Consideramos, também, que não somos o conhecimento que temos. Somos sempre o mesmo, com pouco ou com muito conhecimento. 

Mas para aquele que é um conhecedor de Brahman, se é um conhecimento verdadeiro e profundo, para aquele que está estabelecido Nele, desaparece a diferença mencionada. A realidade, o conhecimento e o conhecedor tornam-se um só. Brahman é a divindade Una que está presente em todos os seres, a qual se tornou consciente no verdadeiro mestre.

Brahman é a única realidade a ser conhecida, tudo o resto não passando de ilusões mais ou menos fugazes. Brahman é o único conhecimento verdadeiro, por ser em si mesmo a Verdade. Brahman é, por tudo isso, o único Conhecedor absoluto, cuja luz se infunde na alma do mestre iluminado e lhe permite guiar o discípulo, trazendo-o até si.

Shankaracharya, tal como é citado por H.P. Blavatsky, diz-nos que “O conhecimento do Espírito absoluto, como a refulgência do sol, ou como o calor do fogo, é nada mais que a Essência absoluta em si mesma.”3

  1. Nunca transgride as regras de conduta

A mais segura e inspiradora forma de transmissão entre mestre e discípulo é o exemplo. O exemplo da própria vida é a obra mais importante a ser construída com o tempo que temos disponível. Gera uma linguagem direta, clara, humana, pois é a própria linguagem da vida.

Os olhos do discípulo, qual omnisciência sempre atenta, vêm e aprendem de forma mais profunda os exemplos do que ouvem e assimilam as palavras do mestre. Contudo, ainda que nenhuma consciência permanecesse acesa no universo para observar os seus actos, nem nesse momento o verdadeiro mestre moveria um só átomo da sua conduta. A conduta do sábio não é determinada pela observação externa, mas apenas pelos ditames da sua consciência unida à sabedoria espiritual. 

As regras de conduta, como as margens de um rio, são os canais através da qual deve fluir a corrente da existência. Demarcam os limites que não podem ser transpostos, não só em ação, mas também em pensamento.

As regras de conduta não são, como se poderia pensar, um condicionamento exterior à nossa liberdade. A água da vida, na ação humana, é direcionada desde o seu interior, desde a íntima raiz da liberdade, para o sentido correto. Sem uma sábia e consciente vontade por detrás de cada gesto, a corrente da existência acabaria por se desviar do seu rumo.

Templo Shankaracharya, também conhecido como Templo Jyeshteshwara, numa fotografia de 1868. Provavelmente foi um templo budista convertido por Shankaracharya ao culto de Shiva. Wikipedia

  1. Desprovido de ostentação e orgulho

Há um motivo para que o mestre seja o mestre e o discípulo seja o discípulo. A própria ordem do mundo depende dessa mesma lei, que é a Lei da Iluminação. Esta lei significa que aquilo que é luminoso se propaga em todas as direções, penetrando na obscuridade para a iluminar. Mas a obscuridade não tem o mesmo poder, pois não consegue propagar-se para um espaço iluminado. O lugar da luz é o de estar acima da escuridão.

Do mesmo modo, a sabedoria do mestre deve propagar-se em direção à alma do discípulo, iluminando a sua ignorância e transformando-a em discernimento, compreensão e conhecimento. Se o mestre não tem essa luz, se não sustenta nas suas virtudes o fundamento dos seus conhecimentos, se perde a humildade de coração que é alma mesma da sabedoria, então deixa de ser mestre. Se o discípulo não tem ou não admite essa ignorância, se não é recetivo aos ensinamentos do mestre, então deixa de ser discípulo.

Mas no momento em que, no lugar de querer despertar, se utilizam os conhecimentos para demonstrar superioridade, ou se mostram os próprios poderes para ser admirado, o seu brilho pode atrair o olhar, as suas ideias podem dar certo impulso à consciência, as palavras e os poderes podem fascinar a fantasia do discípulo, mas não o farão despertar. Se o mestre ostenta o que sabe, se apenas se preocupa em mostrar o quanto sabe, o quanto é melhor que todos os outros, o seu orgulho acabará por levá-lo ao cume das montanhas mais altas, as artificiais montanhas do seu ego, para lá ficar sozinho e de cujas sufocantes alturas a única saída será precipitar-se de novo nos profundos vales da sombra e da humilhação.

  1. Engano e artimanha

A devoção do discípulo é uma abertura de coração, um amor pelos seus mestres que o torna receptivo aos ensinamentos e profundamente grato por tudo o que aprende.

Essa abertura de coração transforma-se num tipo de sensibilidade que, do mesmo modo que abre as portas à assimilação da sabedoria, também o expõe a uma vulnerabilidade acrescida, que apenas se mantém na mesma medida da sua confiança no mestre.

Quando o mestre recorre ao engano propositado, quando utiliza artimanhas para enredar nos seus próprios obscuros interesses, quando os seus raciocínios deixam se ser rectos e honestos, o discípulo sente uma ferida abrir-se no seu coração, quebrando o elo que o liga ao mestre ou, o que é pior, rompendo o fio dourado que puxa a sua alma em direção à sabedoria.

Sem uma vida que seja a expressão da verdade que o mestre traga dentro de si, o influxo da vida espiritual encontrará um obstáculo que não mais permitirá um despertar do discípulo. 

  1. Impostura e falsidade

Muitos falsos mestres prometem aquilo que não podem cumprir. O mestre não pode prometer um caminho para o discípulo que seja ao mesmo tempo fácil e válido. Os caminhos fáceis são aqueles nos quais não é necessário qualquer esforço. E, sem esforço, os únicos caminhos possíveis são aqueles em que estamos parados – e, portanto, não são qualquer caminho – ou aqueles que nos fazem escorrer por uma encosta – e estes, portanto, só nos podem levar ao abismo. Os caminhos fáceis (falamos de caminhos espirituais) são, então, caminhos falsos, uma impostura.

Para avançar de forma real e verdadeira, tem que haver um movimento ascendente, sustentado nas próprias forças do discípulo, no exercício das suas energias, nas suas melhores capacidades, da sua mais elevada consciência. Não é possível progredir sem vencer, numa luta interior, todas as potências da inércia, da preguiça, da ambição e do egoísmo. Só assim as suas forças, a sua energia, as capacidades e a sua consciência poderão crescer e desenvolver-se.

O mestre deve ser exemplo de tudo o que ensina, o primeiro no esforço necessário, o primeiro na iniciativa, o primeiro no risco, o primeiro na aventura de avançar no caminho em direção ao alto e ao fundo de si próprio.

  1. Inveja

A qualidades dos outros deveriam ser para nós motivo de alegria. No entanto, por nos fazerem recordar o quanto somos imperfeitos, o quanto nos falta obter, o quanto desejamos conquistar, surge um sentimento de hostilidade em relação à pessoa que expressa tais qualidades.

Numa família espiritual como pode ser uma escola filosófica, na qual coabitam vários professores e vários discípulos, podem surgir invejas de uns em relação aos outros. Talvez o discípulo do outro manifeste as qualidades que o nosso não tem; talvez o outro instrutor consiga resultados que não conseguimos; ou talvez, até, um discípulo demonstre um progresso que o próprio mestre não consiga acompanhar.

A inveja cresce no solo da separatividade. Se tomarmos consciência que estamos ligados, se sentirmos no coração que fazemos parte da mesma unidade, reconheceremos que o bem do outro é o nosso próprio bem, tal como é o bem de todos. Nada há de bom que aconteça a um ser humano que não seja benéfico para toda a humanidade.

Devemos ficar felizes se o discípulo de outro instrutor demonstre qualidades excepcionais, pois desse modo o nosso discípulo pode colher uma inspiração extra do seu companheiro de caminho.

Devemos alegrar-nos que outros consigam aquilo que não conseguimos. Devemos transformar essa constatação em alento para continuar, pois desse modo fica demonstrado que é possível tal conquista.

Devemos agradecer a boa ventura de ver um discípulo superar o seu mestre, pois tal é o propósito da evolução humana, em que cada geração supera a anterior numa ascendência conjunta em direção ao cume sagrado da Concórdia.

  1. Egotismo e apego

Há uma ideia inata gravada no espírito humano: somos responsáveis pelos nossos actos. No entanto, devemos interpretar essa responsabilidade com prudência e discernimento, dando o real valor ao “eu” que está a agir.

Quando surge o fracasso, no mestre ou no discípulo, se apenas procuramos a sua causa em factores externos, acabamos por acreditar que o universo conspirou contra nós, que tivemos azar, ou que alguém incompetente se cruzou no nosso caminho. Quando surge o triunfo, em nós ou no discípulo, se apenas nos consideramos como única causa do sucesso, acabamos por acreditar na nossa exacerbada superioridade, sobrevalorizando a nossa inteligência e o nosso esforço. Ambas as visões nos afastam da verdade.

O nosso “eu” é apenas o resultado do cruzamento de várias forças da natureza num único ponto. Essas forças apenas em parte são conhecidas por nós, havendo muitos factores inconscientes e automáticos a operar através de nós. De acordo com a ação desse eu, a Lei vai operar na produção dos seus efeitos. Assim, todo o encadeamento de causas do universo está regido pela Lei universal. 

A Lei é a causa primeira e última de todo o fracasso e de todo o triunfo. Por outro lado, em ambos os casos, pode faltar-nos o discernimento necessário para saber o que é um triunfo real ou um fracasso real, pois muitas vezes o sucesso é o degrau anterior à queda, e o fracasso o trampolim para o triunfo.

Se a nossa ação tem como consequência o que chamamos fracasso, somos responsáveis pelo nosso afastamento da Lei e pela aprendizagem que se torna possível através da dor. Se não geramos aprendizagem do fracasso – a marca mais genuína da responsabilidade – obtemos um fracasso ainda maior. Mas se aprendemos do fracasso, transformamo-lo em factor de progresso.

O verdadeiro triunfo está na compreensão profunda da nossa responsabilidade e na completa adesão da nossa Vontade à Lei, entrando em perfeita harmonia com ela, deixando nas suas mãos todos os resultados. Essa é a nossa maior responsabilidade, que cresce na medida em que reconhecemos que não somos nós a agir neste universo, mas é sim o universo que está a agir através de nós para colaborarmos na grande obra da Harmonia Universal.

  1. Deseja partilhar somente o conhecimento de Brahman

A Lei é o caminho para Brahman.

A verdadeira sabedoria é o conteúdo da Lei, é a luz que pode guiar os nossos pensamentos em direção à consciência de Brahman, o Absoluto, e guiar os nossos actos à construção do reino de Deus na Terra.

Há um único caminho, uma única meta, um único conhecimento, uma única verdade, uma única realidade. O caminho, a vida, a luz, são um só: a UNIDADE, cuja consciência o mestre desejar partilhar com o seu discípulo, pois em Brahman, mestre e discípulo tornam-se um só.

Notas:

1 – Sugerimos a leitura do nosso outro artigo com o título de O mistério de Buddha e Adi Shankara”.
2 – Traduzido do livro A Thousand Teachings (I. I. 6.), de Sri Shankaracharya
3 – H.P. Blavatsky, The Secret Doctrine, Vol. I, p. 29. 1888

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